sexta-feira, 23 de julho de 2010

Nostalgia

Sentado em sua cadeira capenga e de estofado levemente rasgado ele ouvia uma lista de músicas aleatórias enquanto escrevia algum tipo de relatório para o emprego sem valor real que ele tinha aos seus quarenta anos. As palavras eram escritas sem nenhuma interesse, algo realmente mecânico, talvez depois daquilo fosse tomar uma bebida com algum amigo.
Uma música começa a tocar, não qualquer música, aquela música tinha um valor especial. Ela o lembrava da primeira namorada, tinha sido realmente difícil conquistar aquela garota, ele tinha agora treze anos e estava parada em frente a casa dela, ela o olha com um sorriso e um certo ar de curiosidade, ele balbucia alguma coisa, ela dá um sorriso e se aproxima um pouco, ele tenta balbuciar algo novamente, ela se aproxima ainda mais, diz que ele não precisa falar nada, isso dá forças a ele que declama seu amor, ela sorri, eles se beijam, um barzinho ao fundo toca a música e ele acorda de seu sonho quando a música acaba. Ele dá um longo sorriso, um sorriso que logo amarela ao perceber de volta os quarenta anos, ele ainda tem a foto dela, ainda a ama, mas ela é passado, e na verdade o que ele sente é nostalgia, coisa de quarentões.
Outra música começa, essa faz seu coração pular, é a mesma música que ele e seus amigos cantavam animadamente na viajem de formatura do ensino médio, estava agora com dezessete anos. Eles tinham escondido um pouco de pinga nas malas de mão para a professora não ver, beberam um pouco, estavam levemente embriagados, o maior tropessou em algo e uma das garrafas caiu no chão se espatifando, o ônibus parou e em desespero os quatro pularam correndo a janela do ônibus, a professora saiu atrás deles que entraram correndo no hotel. Ele deu uma risada, a música passou, e essa fez ele quase ter um ataque. Ele achava que tinha dado um fim nela, era a única música que sua banda tinha gravado, tinha agora vinte anos e sonhos, fazia cinema e tinha a utopia de ser um grande cineasta. Não queria apenas ser mais um, vivia de biquinhos mesmo com todos dizendo para fazer um concurso, ele realmente não queria virar parte da massa. A banda eram os mesmos quatro do ensino médio, mais uma garota, ela era alegre e cheia de ideais, também não seria mais uma, ele tinha uma paixonete secreta por ela. Depois da gravação da música os cinco saem para comer pizza, ele diz que em sua casa terá um forno para pizza, todos riem e dizem que vão fazer uma "pizzaiada" em sua casa enquanto veem os filmes que ele dirigiu e escreveu.
A música acaba e ele se vê novamente com quarenta anos, olha para os lados, nada de forno para pizza, nada de filmes, apenas um roteiro que ficou pela metade. Não vê os amigos a mais de dez anos e sua esposa não é a garota da paixonete, nem se parece com ela. Ele olha para um foto dos cinco no computador, sente um aperto na garganta e fecha a janela que exibia a imagem no computador, se reencosta na cadeira e olha para o relatório, as músicas da lista voltam a ser aleatórias e sem sentido. Ele pensa em ligar para alguém das antigas, a idéia logo vai embora e ele volta a escrever o relatório sabendo que vinte anos mais novo ele sentiria vergonha do que se tornara.

Fim da transmissão
Bzzzzzzzzzzzzzzzzz

sábado, 12 de junho de 2010

Diálogo

- Cara, tenho meio que uma parada pra te contar...
- Hum...
- Tipo assim, sua mãe...
- Que tem ela?
- Sabe, ela...
- Ela?
- Foi.
- Foi pra onde?
- Assim, só foi...
- Pro mercado?
- Não!
- Fala pra onde então!!
- Ela tipo, deu tchau.
- Sim, se ela foi tinha que dar tchau, mas nem falou comigo...
- Oh meu Jesus, ela deu "o" tchau...
- Ahm, mas pra quem?
- Pra todo mundo!
- Ela foi viajar sem me falar nada?
- De certa forma...
- Mas foi pra onde?
- Ahm... Pro céu.
- Foi de avião?
- Chega!! ELA MORREU!!! Pronto, falei! Tchau pra você!
- O.o

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Apenas mais um capanga

Ele acordou, sentou-se na cama, olhou para o lado da cama da mulher que estava ausênte, sentiu o cheiro de pãozinho fresco, se levantou, foi até o banheiro, lavou o rosto, voltou ao quarto, trocou de roupa e foi até a cozinha.
Lá estavam, sua vida, esposa e dois filhos, um menino e uma menina. Sentou-se a mesa e pôs-se a comer, teria um dia cheio, finalmente tinha arranjado um emprego, era algo como um segurança, não tinha entendido direito, provavelmente só um jeito difícil de dizer capanga, mas na situação em que ele se encontrava qualquer coisa servia, até utilizar seus conhecimentos de armas e tudo o mais.
Se levantou da mesa após terminar de comer, deu um beijo na menina, um no menino e um na mulher, como ele amava aqueles três... Saiu de casa.
O carro estava concertando, no seu último emprego fora motorista de um homem misterioso que, ao receber ordens de fugir de um carro preto, acabou batendo o carro do homem no seu próprio sendo assim despedido. Era muito azar mesmo, sem emprego e sem carro numa lapada só.
Foi andando pela calçada, admirando os primeiros raios de sol que emergiam, as primeiras crianças a sair e brincar na rua, as primeiras pessoas a sair para trabalhar, tudo parecia tão calmo, na mais perfeita paz. E ele gostava disso, era um homem pacífico, não gostava de violência e muito menos de armas, chegando até a ser irônica sua atual situação.
Ele chegou no tal lugar, um armazém velho, ele não sabia muito bem o que tinha lá dentro, entrou assim mesmo. Viu vários homens armados e, ao fundo, um homem gordo com um terno branco e um anel dourado no dedo, não conseguia ver daquela distância se era no anular ou no do meio.
Um homem, alto e magro, chegou até ele, o empurrou para um vestuário e o entregou um terno e uma UZI, uma UZI!! Ele nunca tinha tocado numa antes, ninguém tinha falado sobre elas no contrato, ele não sabia com uzar uma, como assim?! Antes que ele pudesse pensar sobre o assunto e chegar a conclusão que pouco importava se ele sabia ou não usar aquela submetralhadora, foi empurrado de volta para o que parecia mais uma linha de frente de um exército, tinha bem uns cem homens lá dentro, talvez duzentos.
Estavam todos calados, calados até demais, parecia que esperavam alguém, nenhum dos homens mexia um músculo, nem uma piscadela dequer. Nenhuma daquela atenção foi realmente útil para o que aconteceu a seguir.
Um homem, de uns trinta ou quarenta anos, careca e com uma regata branca entrou portando duas armas, o nosso personagem não soube distinguir, não soube ou não teve tempo. Tempo principalmente, visto que o careca entrou metendo para fuder mesmo! Como diriam alguns de linguajar mais agressivo, "metendo a pica grossa". Tiros para todos os lados, sangue para todos os lados, o nosso homem de família mal teve tempo de apertar o gatilho, o careca chegou perto dele e lhe explodiu a barriga enquanto atirava em mais um pedaço da multidão sedenta e armada. Ele caiu de joelhos, a imagem de seus olhos ficando turva, os sons mais distântes. Antes que ele terminasse a queda, teve tempo de ver o homem de terno branco tentar escapar e ter a cabela estourada pelo careca.
Sua cara caiu ao chão, o careca continuou, provavelmente terminaria de matar todos daquele maldito armazém, talvez fizessem um filme para ele depois, seria vangloriado como herói. Quanto ao NOSSO herói? Bem, ele era apenas mais um capanga.
Fim da transmissão
Bzzzzzzzzzzzzzzzzz

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Botão Vermelho

Por que diabos ele apertou aquele botão, e porque diabos existia aquele botão?! Ele estava de frente para um computador. Algumas pessoas aleatórias e anônimas o tinham pagado para concertar aquela coisa que agora não parava a contagem regressiva.
Quando ele chegou na sala ficou surpreso por tudo ser feito de aço, ou qualquer outro material metálico, e ser tão grande, aquele lugar era realmente muito grande! Chegando no computador, tentou achar um lugar para ligar. O desktop era estranho, tinha um monitor enorme, algo em torno de 52'', e o resto do computador parecia se estender por quase toda a sala, parecia aqueles dos filmes, que falam e tudo mais. Tentando achar o bendito botão de ligar, ele achou algo diferente. Também era um botão, um lindo botão, era grande e vermelho, grande e vermelho e chamativo, só tinha um problema... A inscrição: NÃO ToQUE! Ele nunca entendeu o motivo do "o" de "toque" estar minúsculo enquanto todo o resto era maiúsculo. Mas isso realmente não importava diante do incrível e fascinante botão vermelho.
Ele olhou fixamente para o botão, uma pequena gota escorreu pelo seu rosto e sua mão começou a, lentamente, ser atraída ao rubro botão. Não podendo mais segurar o apertou, apertou com muita vontade e espírito, apertou gostoso, apertou de uma tal maneira que um sorrivo estremamente enpolgante apareceu em seu rosto.
O êxtase durou poucos segundos, logo o monitor ligou com uma contagem regressiva, e logo acima dessa havia algo que ele realmente não queria ver... "Auto destruíção em (contagem regressiva)". Por que alguém poria um maldito botão de auto-destruição no próprio computador?! Era um computador pessoal! Se não fosse ela não mandaria um simples técnico concertá-lo, mandaria alguém de confiança. E porque alguém poria o botão de auto-destruição como sendo o mais chamativo e sem a prévia descrição do que ele faz. Apenas colocaram um lindo botão vermelho de auto-destruição no computador.
Ele correu, correu muito, correu como se sua vida dependesse disso, o que na verdade era uma realidade. E porque o computador com auto-destruição e com time regulado para 30 segundos está do outro extremo de uma mansão?!
Próximo da porta de saída ele deu um sorriso, faltavam 5 segundos, mas ele ia conseguir a porta estava a sua frente, faltava só atravessar a saPOFT! CABUM!!!
Ele olhou para trás, fogo chegando nele numa velocidade incrível, olhou para frente, a porta de saída a uns 5 metros, olhou para si mesmo, estava deitado, ou caído, no meio da sala com um controle de televisão semi-destruído perto de seus pés. E antes que a explosão o consumisse, ele pensou no quão idiota era a idéia de um maldito botão vermelho, e de como era pior ainda a idéia de apertá-lo.

Fim da transmissão
Bzzzzzzzzzzzzzzzzz

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Pôr do sol

Todo dia ela via aquele nascer do sol, e todo dia via também o poente. Todo dia sentia aquela brisa suave que passava por entre suas folhas e todo dia deixava cair alguma. Os raios do sol revigoravam-na todo dia, e as gotas da chuva a refrescavam. Suas raízes puchavam nitrientes da beira do rio, e também impediam que este fosse soterrado. A harmonia na qual vivia era algo que a deixava realmente feliz.
Toc! Algo bateu em seu grande e forte tronco, algo afiado, a dor foi aguda e se desespero se proseguiu por algum tempo, e antes que ela pudesse novamente ver o pôr do sol, caiu para trás. Desde pequena nunca havia chegado perto de cair. Tempestades e vendavais sequer a faziam saculejar... Que força era aquela...
Foi levada até um espaço pequeno, apertado, ali haviam outras como ela. Nevava lá fora.
Algumas pessoas entravam lá e levavam algumas árvores, ela foi ficando, ficando tristes, ficando seca.
Ela então percebeu alguém se aproximar, analisou-a, e a levou. Levou ao que parecia ser sua casa, tudo era muito brilhante e confuso, ela não sabia onde estava, mas definitivamente queria voltar para seu campo, para sua brisa e para... Uma luz fortea envolve, aquelas pessoas colocaram bolas coloridas e luzes nela, tentavam deixa-la mais bonita, ela não podia ficar mais bonita, sem o sol e a água e o chão como poderia ficar mais bonita? Suas folhas caíam cada vez mais, e as pessoas entravam na casa cada vez mais, e ela entristecia cada vez mais.
A luz passou pela janela e ela percebeu que estava sendo levada para outro lugar, foi então que veio a surpresa, uma brisa passou por entre as poucas folhas que ainda restavam, raios de sol... Aquele era o nascer do sol, ela admirou aquela paisagem novamente, a paisagem que sempre admirava foi completamente esquartejada e jogada dentro de um fogão, e enquanto as chamas a consumiam e a transformavam em simples lenha, ela admirava o antes roubado pôr do sol.

Fim da transmissão
Bzzzzzzzzzzzzzzzzz

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Flor


Um, dois, três copos de uísque e ela ainda não chegou, e essa flor na minha mãomurchando cada vez mais.
Já sei a história daquele casal no canto, e do casal que estava ali antes. Aquele bêbado no balcão finalmente está se levantando, a terceira gota de suor parada no meio da minha testa.
O último se levantou, ele é estranho... O sol já está despontando no horizonte, ele estava do outro lado quando eu cheguei... Acho que ela não vem mais, melhor que não venha, acabaram-se todas as pétalas.

Fim da transmissão
Bzzzzzzzzzzzzzzzz

Lembranças

¹"Você fica aí achando que eu conto lembranças por que estou senil ou qualquer coisa assim. Mas quando se está velho essas histórias acontecem dentro da gente o tempo todo. E com a palavra a gente reinventa o acontecido". Coisas tristes se tornam engraçadas, coisas simples nos dão saudade e a gente fica com a senseção de que era tudo melhor... Talvez foissa mesmo, agora tanto faz. O tempo passou, só que aqui dentro continua passando e repassando com um disco furado...
Seda, a tia Lugósia sempre usa senda, e eu adoro raba-la para bricar de pirata, que nem aqueles que invadiram o navio do tio José. Não me olhe assim, no meu tempo de criança ainda tinham muitos piratas. Se não fossem esses tubos me prendendo nessa cama eu te mostrava como era.
A pele dela é tão macia, e quente. A mão dela está passando por mim, é delicada... Dou-lhe um beijo, é o melhor que eu já dei, minha nossa! Boa esposa, linda mulher, ótima mãe... Epitáfio engraçado para a mulher da minha vida. Essas pessoas choram, eu não, ela provavelmente está bem melhor que eu. E você continua me ouvindo. Aposto que se não estivesse vestindo essas roupas brancas já teria ido embora.
Finalmente nasceu, depois de nove horas finalmente nasceu, e ela está tão linda dormindo... Que esngraçado, os "pis" da máquina estão diminuindo. Ele está pulando no meu colo, que netinho lindo! Tudo branco...

¹retirado de um conto de Chico Buarque, não me lembro o nome...

Fim da transmissão
Bzzzzzzzzzzzzzzzzz