Ela olhou para ele mais uma vez, descrente das atrocidades que gritava enquanto ela tentava fazer mais uma prova de amor.
Todas aquelas cartas, as carícias, a intimidade. Não era tudo em vão. Eles eram destinados a ficar juntos e agora ele a destratava. Agia como se ela fosse uma psicótica, xingou-a de rato, inclusive.
Ela continuou a andar de um lado ao outro do cômodo, ouvindo a gritaria de seu grande amor, gritos de medo, gritos de raiva. Nenhum sentimento que sobrepujasse a força do amor dos dois.
Amarrou mais forte as cordas, nada podia dar errado, e abriu a janela. Uma torrente de luz e vento lhe acertou o rosto. Por um breve instante, tudo ficou em silêncio, o sol preencheu os mais sombrios cantos de seu rosto marcado pela rejeição e o vento fez seus cabelos voarem, como se estivesse na água. Ela gostava da água.
Os sons foram voltando aos poucos e, junto com eles, a preocupação. A calmaria foi levada embora e o som das sirenes, megafones e gritos voltou. Ela olhou para baixo, policiais, vizinhos, bombeiros, enfermeiros. Olhou para trás, o amor de sua vida. Se encaminhou até a cadeira e empurrou-a para perto da janela já sem parapeito, ele começou a chorar e gritar descontroladamente. Rogou por sua piedade, rogou por seu amor. Ele não podia entender que aquilo era por amor, que aquilo era por piedade. O mundo não merecia algo tão puro e o mundo o perverteu e distorceu. Esse era o único remédio.
Ela virou rapidamente quando ouviu um barulho alto e agressivo, policiais haviam arrombado a porta e agora se prostravam apontando suas armas inúteis. Tentaram falar coisas sem sentido, convencê-la a desistir. Isso era loucura. Mas o que não era loucura? A única coisa certa agora era ele, e ele gritava de medo, mas não podiam morrer, pois sentimentos são imortais.
Tudo ficou novamente mudo, o sol preencheu, o vento a fez sentir, e ela entendeu o mundo, ela entendeu a vida, ela lembrou. Caiu abraçada a seu amor, os policiais em câmera lenta correndo, a vida crescendo e se espalhando por entre um mar de sensações enebriantes. Suas asas finalmente brotaram, mais uma vez, como era certo de acontecer, certo e justo, e ela o levou para onde nunca estariam sós e nunca brigariam, pois tinham um ao outro.
Sangue e gritos.
Fim da transmissão
Bzzzzzzzzzzzzzzzz
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Um comentário:
Nossa, que triste, típico de filme, o amor só é perfeito pq as pessoas morrem kkkkk
Bjos!
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